Ameaças físicas: quando o ataque não é digital

·5 min de leitura·Por SSP Editorial Team
Capa da SSP Academy: ameaças físicas e ataques de chave inglesa contra quem tem cripto

Ameaças físicas: quando o ataque não é digital

A maioria dos conselhos de segurança cripto parte do princípio de que o atacante está em outro lugar — um site de phishing, um contrato malicioso, um notebook comprometido. Existe uma categoria de ameaça que ignora tudo isso. Alguém que sabe que você tem cripto e está disposto a ameaçar você pessoalmente não precisa quebrar criptografia nenhuma. Precisa que você desbloqueie o celular.

O setor chama isso de «ataque de chave inglesa», pela velha piada de que nenhuma criptografia sobrevive a alguém com uma chave inglesa. É desconfortável pensar nisso, e é justamente por isso que vale dez minutos de reflexão calma antes que se torne relevante.

Por que essa ameaça está crescendo

Ataques físicos a quem tem cripto deixaram de ser curiosidades raras. Sequestros, invasões de domicílio e roubos violentos contra pessoas que se acreditava terem cripto foram relatados em muitos países, e tendem a se concentrar onde os detentores são identificáveis publicamente.

O motivo é pura economia. Conforme a segurança digital melhora, o caminho mais barato até as moedas de alguém passa dos dispositivos para a pessoa. Cripto é valor ao portador: quem controla as chaves controla o dinheiro, e uma transferência confirmada não pode ser revertida. Para um criminoso, esse é o atrativo.

A privacidade é a primeira e melhor defesa

Quase todo ataque físico começa com o atacante sabendo que você tem cripto — e, de preferência, quanto.

Não divulgue o que você tem. Postar saldos, ganhos ou prints do portfólio faz de você um alvo. Assim como falar disso em eventos, em bares ou com pessoas que você acabou de conhecer.

Separe identidade de patrimônio. Contas em redes sociais ligadas ao seu nome real, sua cidade e sua atividade cripto formam um mapa. Pense no que um estranho conseguiria montar.

Cuide dos rastros de dados. Vazamentos de dados de corretoras, endereços de entrega de dispositivos físicos e exposição por análise on-chain já foram usados para encontrar detentores. Seus endereços revelam mais do que você imagina, e ligar um endereço publicamente conhecido à sua identidade liga todo o seu histórico a você.

A defesa mais eficaz contra um ataque de chave inglesa é nunca ser escolhido. E isso depende principalmente do que você não diz.

O que o multisig faz aqui — e o que não faz

A SSP guarda seus fundos num multisig 2-de-2: uma chave na extensão do navegador, outra no celular. Isso protege bem contra um dispositivo comprometido, um celular roubado ou um notebook vítima de phishing. O que ele foi feito para evitar é que um único ponto de falha entregue tudo a alguém.

Mas é preciso ter clareza sobre a coação. Se os dois dispositivos estão com você — o celular no bolso e o notebook em casa —, um atacante que tem você nas mãos pode obrigar você a aprovar nos dois. Duas chaves com uma pessoa num único lugar não são defesa contra alguém que ameaça essa pessoa.

O multisig só começa a ajudar contra ameaças físicas quando as chaves estão de fato separadas de um jeito que o atacante não consegue superar na hora: em lugares diferentes, ou com pessoas diferentes. Esse é um dos motivos pelos quais empresas usam cofres de várias pessoas — organizações que dividem a assinatura entre pessoas tornam, por projeto, insuficiente uma única pessoa coagida. Para um indivíduo, guardar a segunda chave num lugar que não se alcança imediatamente produz o mesmo efeito, ao custo da conveniência.

E há uma verdade mais dura. Tornar-se incapaz de cumprir pode agravar uma situação violenta em vez de encerrá-la. Separar chaves é um dissuasor que funciona melhor quando é conhecido de antemão, não um truque para sacar no meio de um assalto.

Estruturar suas posses para se expor menos

Não deixe tudo gastável na hora. Valores do dia a dia podem ficar nos dispositivos que você carrega. Posses maiores ficam melhor onde movê-las exija tempo, deslocamento ou outras pessoas.

Considere uma carteira de gastos. Uma carteira separada com saldo modesto é algo que você pode entregar sob coação. Não é garantia — um atacante determinado pode não acreditar que é tudo —, mas muda a conta.

Não carregue seu material de recuperação. Frases sementes devem ficar num lugar seguro e separado dos seus dispositivos, nunca na carteira, na bolsa ou numa nota do celular.

Pense na sua casa. Se outras pessoas moram com você, elas fazem parte do seu modelo de ameaça. Devem saber o suficiente para se manter seguras, não tanto que virem alvo.

Se acontecer

Ninguém pode oferecer um roteiro para uma situação violenta, e nada aqui vale mais que a sua segurança ou a de outras pessoas. A recomendação geral dos profissionais de segurança é constante: sua vida vale mais que suas moedas. Obedeça, mantenha a calma e concentre-se em sair dessa.

Depois, registre imediatamente na polícia e considere comprometida toda chave que você tinha consigo. Mova o que sobrou para chaves novas. Avise as corretoras aonde os fundos possam chegar — às vezes fundos roubados podem ser congelados se chegarem rápido a uma plataforma regulada.

O resumo honesto

A criptografia não protege você de alguém que pode ameaçar você pessoalmente. O que pode proteger é não ser identificado como alvo, não ter tudo acessível na hora e — para posses maiores — garantir que nenhuma pessoa sozinha, num só lugar, consiga mover tudo.

O multisig dois-de-dois é uma excelente proteção contra os ataques que chegam pelas telas. Contra os que acontecem no mundo real, a privacidade é a primeira linha, a separação a segunda, e a sua segurança pessoal vem sempre antes das duas.

Compartilhar este artigo

Artigos relacionados